Quanto Jesus Cristo Sabia?
Por Nicolaas H. Gootjes
Traduzido do site:
https://www.christianstudylibrary.org/article/how-much-did-jesus-christ-know
Este artigo é sobre a natureza humana de Jesus Cristo e o conhecimento abrangente que Jesus tinha sobre sua tarefa e o futuro deste mundo. Mas também havia coisas que ele tinha que aprender e não sabia. Este artigo analisa a pergunta: Quanto Jesus Cristo sabia?
Nossas limitações na compreensão
Quando falamos de Jesus Cristo, rapidamente percebemos nossas limitações. Somos capazes de entender as pessoas que vivem ao nosso redor, pois nós mesmos nascemos de um pai e uma mãe humanos. O Senhor Jesus Cristo, no entanto, é mais do que um homem. Ele é Deus assim como homem. Ele tem uma natureza divina e uma natureza humana. Na verdade, Ele tinha uma natureza divina antes de nascer como um bebê em Belém. Ele sempre foi Deus: desde a eternidade ele existiu como Deus. Em um momento específico, porém, Ele assumiu a natureza humana. Ele, que era Deus desde a eternidade, também se tornou homem. O apóstolo João aponta para esses estágios na vida de Cristo quando diz:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele acrescenta mais tarde: O Verbo se fez carne e fez sua morada entre nós.
João 1:1, 14
Este é um milagre surpreendente. O Filho de Deus, que continuou sendo plenamente Deus, também se tornou humano. Ele nasceu como filho de Maria. Esta é uma verdade maravilhosa, que foi, e ainda é, não facilmente compreendida. A igreja levou vários séculos antes de estar pronta para falar sobre isso com clareza geralmente reconhecida. O monumento desse processo de pensamento cristão é o Credo Niceno1, que ainda é usado na igreja cristã.
Todos nós conhecemos esta afirmação, confessando que Jesus Cristo é verdadeiro Deus, bem como verdadeiro homem. Não devemos tirar nada de sua natureza humana, pois Ele nasceu de Maria e é em todos os aspectos como nós, com exceção do pecado. Ao mesmo tempo, continua sendo Deus no sentido pleno da palavra; Ele tem uma natureza divina completa. Não há nada faltando em sua divindade.
Tomando isso como ponto de partida, a igreja tem continuamente tentado aumentar sua compreensão da vida de nosso Senhor Jesus Cristo. É possível ver em sua vida e em suas palavras e obras como as duas naturezas coexistem? Sem querer especular sobre questões além de nossa compreensão, podemos aumentar nossa compreensão da grandeza de nosso Salvador Jesus Cristo? Por exemplo, quanto Jesus Cristo sabia? Seu conhecimento era conhecimento divino e Ele sabia tudo? Ou seu conhecimento era limitado assim como nosso conhecimento humano?
Essa questão nos é apresentada pela própria revelação de Deus, pois várias declarações a respeito do conhecimento que Jesus Cristo teve durante sua vida na terra podem ser encontradas nas Escrituras. Podemos obter mais discernimento sobre a vida de Jesus Cristo ouvindo atentamente o que a Bíblia diz sobre Ele. Isso é ainda mais importante porque parece que os dados fornecidos na Palavra de Deus não concordam totalmente. Isso leva à nossa pergunta: Quanto Jesus Cristo sabia?
Quanto ele sabia quando jovem?
A primeira indicação pode ser encontrada na juventude de Jesus. Em Lucas 2, vários aspectos de seu conhecimento são mostrados. Em primeiro lugar, indica-se que Jesus Cristo, quando crescia, não sabia tudo. Quando Lucas descreve seu desenvolvimento, ele menciona não apenas que o menino Jesus cresceu em comprimento e força, mas também que “ele estava cheio de sabedoria” (Lucas 2:40). O que Lucas quer que saibamos é que o jovem Jesus cresceu gradualmente em sabedoria. Havia coisas que Ele primeiro não sabia, mas em certo momento aprendeu. Assim como Ele cresceu em altura e força, Ele também cresceu em entendimento e sabedoria. 2
Na verdade, a Bíblia relata um evento em que isso se tornou evidente. Quando Jesus tinha doze anos, Ele acompanhou seus pais em sua jornada para Jerusalém. Em determinado momento, Ele estava no templo, ouvindo os professores e fazendo perguntas. Todos os que O ouviram ficaram maravilhados com sua compreensão e suas respostas (Lucas 2:46, 47). Ele estava obviamente à frente de seus pares na compreensão das Escrituras. Ao mesmo tempo, o fato de Ele ter feito perguntas deixa claro que Ele queria saber mais. Seu conhecimento não era completo. A isso pode-se acrescentar que Ele aumentou em conhecimento. Depois de retornar à sua cidade natal, Nazaré, Ele “cresceu em sabedoria e estatura” (Lucas 2:52). A última palavra significa que Jesus cresceu fisicamente – diríamos que Ele teve seu surto de crescimento. Ao mesmo tempo, sua compreensão foi aumentando e se aprofundando. Isso mostra seu desenvolvimento mental. Assim como Ele cresceu em altura, Ele cresceu em sabedoria. Ele é totalmente humano, e isso também se mostrou em respeito ao seu conhecimento.
À medida que envelhecia
No entanto, depois que Jesus assumiu seu ministério público entre o povo de Israel, um aspecto diferente de seu conhecimento tornou-se perceptível. Isso começou cedo, enquanto Ele estava reunindo seus discípulos. Quando Jesus viu Natanael, Ele disse: “Aqui está um verdadeiro israelita, em quem não há nada de falso” (João 1:47). A honestidade de Natanael obviamente não era visível do lado de fora, muito menos que pudesse ser percebida desde o primeiro momento do encontro. No entanto, Jesus sabia disso antes que alguém lhe dissesse. Ele revelou aqui seu conhecimento divino. 3 Na verdade, o próprio evento contém um duplo testemunho de seu conhecimento divino. Jesus começou afirmando a respeito de Natanael que não havia falsidade nele, algo que não podia ser facilmente verificado. Então Ele confirmou a veracidade de suas palavras, acrescentando que Natanael estava debaixo da figueira antes de ser chamado, uma afirmação que pode ser verificada. Combinadas, essas duas declarações fornecem uma forte confirmação do conhecimento divino de Jesus.
O Novo Testamento registra muitos outros casos mostrando que Jesus Cristo sabia coisas que meros humanos seriam incapazes de saber. Os exemplos a seguir são tirados do evangelho de João que foi usado antes.
👉 Ele sabia no início de seu ministério que morreria nas mãos dos judeus. Depois que Ele limpou o templo, os judeus ficaram indignados. Em resposta, Ele disse: “Destruí este templo, e em três dias o ressuscitarei” (João 2:22). Os judeus não entenderam o significado da expressão “este templo” e o questionaram sobre isso. Na verdade, Jesus estava falando sobre sua morte e ressurreição. Na época, ninguém poderia saber sobre sua execução. Ele mesmo, no entanto, sabia tanto de sua morte precoce quanto de sua ressurreição dos mortos.
👉 Outro exemplo em que vários aspectos de seu conhecimento incomum se tornaram aparentes pode ser encontrado em sua discussão com a mulher samaritana (João 4:17). Embora Jesus sempre tenha morado longe da área onde ela estava e esta aparentemente tenha sido a primeira vez que Ele conheceu essa mulher, Ele provou saber tudo sobre sua vida de casada. A mulher, provavelmente desconfortável com sua declaração e tentando desviar a atenção de seu estilo de vida, fez uma pergunta a Ele em resposta, mas ela não negou a verdade das palavras de Jesus. Na verdade, ela O reconheceu como um profeta que podia falar do que Deus havia revelado a Ele (19). Em sua resposta, Jesus anunciou a mudança na adoração que em breve ocorreria (21-24). Nesta discussão, Jesus Cristo provou ter um conhecimento excepcional, tanto do passado quanto do futuro.
👉 O conhecimento de Jesus sobre Lázaro era abrangente. Ele não apenas estava ciente do fato de que Lázaro havia morrido (11:14), já antes de tomar conhecimento disso, Ele havia declarado que a doença de Lázaro não terminaria em morte (4). Em outras palavras, Ele sabia de antemão tanto a morte de Lázaro quanto seu retorno à vida.
👉 Jesus sabia que era Judas quem O trairia. Na verdade, Ele mostrou que tinha uma visão prévia dos planos de Judas (13:11).
👉 Durante a noite em que Ele instituiu a Ceia do Senhor, e antes que Pedro realmente O traísse, Jesus também advertiu Pedro de sua traição (13:38). Mais tarde, João relata em termos gerais que Jesus sabia tudo o que ia acontecer com Ele (18:4).
👉 Antes de Jesus ter que sofrer o sofrimento final, Ele contou a seus discípulos sobre o Pentecostes. Ele ensinou-lhes que o Espírito Santo viria sobre eles para que se lembrassem de tudo o que Ele lhes havia dito (14:26).
👉 Jesus também sabia e fez saber a seus discípulos que em pouco tempo eles não o veriam, mas pouco depois o veriam novamente (16:16). Isso mostra que seu conhecimento se estendeu não apenas à sua própria vida, mas incluía o que aconteceria na vida dos outros.
Esta é uma coleção impressionante de declarações. Todos eles indicam que Jesus Cristo tinha um conhecimento abrangente. Ele não só sabia o que ia acontecer consigo mesmo, como também provou conhecer em detalhes a vida de outras pessoas. Ele conhecia o estilo de vida da mulher samaritana desconhecida, bem como os pensamentos de seus discípulos. Ele também sabia o que aconteceria no futuro. 4
Isso pode dar a impressão de que Jesus não sabia tudo antes de seu ministério público, mas depois de ter assumido seu ministério sabia tudo o que havia para saber. No entanto, novamente os fatos contradizem nossa expectativa.
Ainda aprendendo
Até agora, o padrão que encontramos foi que Jesus Cristo tinha conhecimento humano normal, pois Ele crescia em conhecimento. No entanto, depois que Ele foi batizado, seu conhecimento se estendeu além do que as pessoas comuns podem conhecer. Ele teve conhecimento divino abrangente durante os três anos de seu ministério público.
Mais deve ser dito, no entanto, pois a Bíblia também aponta que enquanto Jesus estava cumprindo sua tarefa profética entre Israel, Ele não sabia tudo. Ele mesmo mencionou isso, pouco antes de morrer. 5 Neste longo discurso sobre o futuro da igreja, Jesus também discutiu seu próprio retorno. Naquele momento Ele declarou: “Ninguém sabe daquele dia, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Marcos 13:32).
Precisamos dar uma olhada neste texto. Jesus Cristo reconheceu sua falta de conhecimento ao responder a uma pergunta de seus discípulos sobre a destruição do templo (13:1). Em sua longa resposta, Ele mostrou novamente que sabia mais do que seus contemporâneos. Ele havia declarado que o templo seria destruído (versículo 2) e havia indicado o que aconteceria cerca de quarenta anos depois, quando Jerusalém seria sitiada e destruída (versículos 14ss). Ele havia falado com autoridade sobre eventos que ninguém em sua época poderia prever, mostrando seu conhecimento do futuro. 6 E, no entanto, no mesmo discurso, Ele também afirmou em certo ponto que não sabia a hora de seu retorno. Jesus Cristo não deu nenhuma qualificação. Ele disse diretamente que não sabia quando retornaria à terra.
Esses dados bíblicos têm causado muita discussão na igreja. Considerando esses textos, a igreja cristã confessou corretamente que Jesus Cristo era Deus e homem. Mas provou ser difícil para eles reconhecer plenamente a falta de conhecimento de Cristo. Quão difícil, pode ser demonstrado pelo fato de que o grande teólogo Agostinho tratou repetidamente deste texto, e nem sempre da mesma forma! Mas sua principal solução é clara: a afirmação de Marcos de que Jesus não sabia a hora de seu retorno deve ser entendida como significando que Jesus Cristo não a revela aos outros! 7 É óbvio que Agostinho queria ficar perto da Escritura, mas ao mesmo tempo deve-se notar que ele falhou em fazer justiça a ela.
Dizer que Jesus sabia disso, mas não queria que outras pessoas soubessem, é distorcer as palavras da Bíblia. Pois o próprio Jesus Cristo disse que não sabia!
Calvino defendeu os primeiros teólogos dizendo que eles tinham boas intenções, pois foram confrontados com negações da divindade de Cristo. Ao mesmo tempo, ele discordou da solução deles, pois ela não faz justiça à declaração do próprio Cristo. Ele salientou que Jesus Cristo não mencionou apenas sua própria ignorância, mas também a dos anjos. Sua própria interpretação baseia-se na premissa de que a natureza divina de Jesus Cristo estava “em estado de repouso” e não se exerceu onde fosse necessário que a natureza humana agisse separadamente. 8
Isso pode ser verdade, mas a solução de Calvino não convence. O problema por que Jesus Cristo neste caso em particular disse que o Filho não sabia o dia de seu retorno não é realmente discutido. Precisamos investigar cuidadosamente o significado do texto no contexto das Escrituras.
Ele era totalmente homem
Antes de tudo, devemos notar a expressão: “Ninguém sabe o dia nem a hora... nem mesmo o Filho”. Cristo deixa bem claro que Ele mesmo não sabia a hora de seu retorno. Jesus Cristo conhecia o tempo da destruição de Jerusalém, que Ele havia anunciado em detalhes. Mas a hora de seu próprio retorno era desconhecida.10
Isso mostra que Jesus Cristo aqui, como mais frequentemente nos evangelhos, fala como humano. Assim como não temos conhecimento do futuro, Jesus Cristo não tinha conhecimento do futuro. Ele afirmou isso enfaticamente.
Surge a questão de como seria possível que Jesus Cristo ignorasse o tempo de seu retorno à terra. Se quisermos fazer justiça a isso, temos que começar reconhecendo que Jesus Cristo foi plenamente homem. Ele ficou com fome quando não comeu por muito tempo. Ele ficou triste quando soube da morte de um apoiador próximo, Lázaro. Ele adormeceu quando estava cansado. E da mesma forma, Ele era um homem que não sabia tudo.
Mas Ele não tinha conhecimento divino? Ele o fez, vários exemplos foram dados antes. Em seu ensino, Ele mostrou claramente que podia falar com autoridade sobre Deus e sua vontade. Mas Ele nem sempre fez isso. Não lemos sobre conhecimento extraordinário quando Ele cresceu. Em vez disso, a Bíblia diz que Ele aumentou em conhecimento. E também no caso de seu retorno, Ele não tinha conhecimento da hora. Ele sabia de sua morte iminente e de sua ressurreição, mas não sabia exatamente quando retornaria. Isso significa: Ele teve que viver por fé! Neste ponto de sua vida, Ele estava perto de sua morte, e Ele teve que confiar em Deus.
Ele tinha conhecimento divino, mas não para usá-lo para si mesmo. Talvez possa ser expresso dessa maneira, que Ele pudesse acessar esse conhecimento divino para dizer às pessoas o que elas precisavam saber sobre Deus e sua vontade. Em sua função como Messias e Salvador, Ele mostrava regularmente que conhecia o plano de Deus e tinha permissão para torná-lo conhecido.
No entanto, ao final de seu ministério terreno, Ele não tinha conhecimento do tempo em que poderia retornar a este mundo para iniciar seu glorioso reinado. Ele teve que sofrer e morrer como todo ser humano: na fé e na confiança. No caso dele, Ele morreria a morte de um criminoso condenado, algo que Ele já havia dado a conhecer aos seus discípulos. Ele sabia de sua morte, mas teve que entrar no processo que levava à sua morte, sem saber a hora de seu retorno.
Podemos dizer que Ele usou seu conhecimento divino para instruir o povo, mas não para se consolar. Essa é a razão pela qual o Filho encarnado que viveu na terra, não sabia quando Ele retornaria a este mundo. Ele sabia o fato de seu futuro retorno triunfante (13:26), mas Ele estava neste ponto de sua vida ignorante do dia e hora em que isso aconteceria.
Viva da fé
Esta é uma declaração muito encorajadora para a nossa própria fé. Pois isso significa que durante sua vida na terra, mesmo Jesus Cristo teve que viver pela fé e ser obediente até a morte, assim como nós temos que fazer (Hebreus 5:5-8). Ele andava por aí sendo fiel em ensinar e pregar nas aldeias de Israel, conhecendo pessoas e sendo rejeitado por muitos. Mesmo quando Ele morreu, Ele viveu em fé, assim como nós. Ele confiou seu espírito a Deus no céu.
Tendo pesquisado os dados que as Escrituras fornecem, qual é a resposta para a pergunta “Quanto Jesus Sabia?” Enquanto Jesus Cristo estava na terra, Ele era verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A Escritura nos mostra os dois lados: sua natureza divina e sua natureza humana. Mas essas duas naturezas nem sempre apareceram lado a lado.
👉 Quando Jesus Cristo cresceu, Ele aumentou em conhecimento. Isso mostra que Ele teve um desenvolvimento humano normal, no que diz respeito ao conhecimento.
👉 Desde o momento em que começou a ensinar e pregar, Ele provou saber muito mais do que os israelitas comuns sabem. Ele era mais do que um profeta, mais até do que João Batista. Ele tinha conhecimento divino à sua disposição. Como resultado, Ele foi capaz de pregar ao seu povo tudo o que eles precisavam saber.
👉 Mas para si mesmo, havia limitações em seu conhecimento. Era parte de sua vida de fé, que Ele tinha que continuar com seu trabalho enquanto confiava em Deus e se apegava à revelação de Deus. Ao aceitar essas limitações, Ele mostrou mais um aspecto de sua fidelidade como Salvador para seu povo.
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